SIMPÓSIO 9
Epistemologias em risco: desinformação e a instabilidade da confiança no conhecimento científico
Coordenação
Robson Figueiredo Brito (PUC Minas)
Paulo Andrade Vitória (PUC Minas)
O mundo contemporâneo, atravessado pelo negacionismo e pela intensificação da desinformação, impõe desafios relevantes à legitimação do conhecimento científico. A circulação de discursos que relativizam evidências e desacreditam consensos científicos contribui para a erosão da confiança pública na ciência, fenômeno discutido por Cologna et al. (2024) e Goldenberg (2022). Nesse cenário, torna-se necessário questionar se a crise de credibilidade científica decorre apenas da proliferação de teorias conspiratórias e conteúdos desinformativos ou se também se relaciona às formas pelas quais cientistas e universidades comunicam seus saberes a diferentes segmentos sociais. O chamado ecossistema da desinformação não pode ser compreendido como uma estrutura linear, mas como um campo complexo de forças discursivas, no qual plataformas digitais, algoritmos de recomendação e práticas de compartilhamento atuam de modo interdependente. Esses sistemas tendem a privilegiar conteúdos de alto engajamento, mesmo quando imprecisos, ampliando a visibilidade de narrativas negacionistas. Paralelamente, usuários comuns desempenham papel central ao disseminar informações falsas, frequentemente motivados por crenças prévias e por uma crescente desconfiança em instituições científicas. Esse contexto torna-se ainda mais sensível diante da centralidade das tecnologias digitais nas práticas informacionais contemporâneas. O Brasil figura entre os maiores consumidores de redes sociais do mundo, sendo líder na América Latina, com cerca de 131,5 milhões de usuários, segundo a Comscore. Dados do Reuters Digital News Report indicam que 87% dos brasileiros utilizam meios online – sobretudo redes sociais e aplicativos de mensagens, como Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp e Telegram – como principais fontes de informação. Assim, o conhecimento científico passa a circular em ambientes mediados por algoritmos que favorecem bolhas informacionais e priorizam o engajamento. Diante desse quadro, impõe-se a reflexão: a perda de credibilidade da ciência resulta apenas da expansão da desinformação ou também evidencia limites nas estratégias comunicativas da própria comunidade científica? Nesse simpósio temático, serão aceitos trabalhos teóricos e empíricos que possam contribuir para o debate ensejado pela pergunta posta.
Palavras-chave: desinformação; negacionismo da ciência; discurso científico.